Jogo de Areia

Jung define o processo da “função transcendente” no seu trabalho “Tipos Psicológicos”, nos §244, §549 e §550:

“A função psicológica e transcendente resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes. A experiência no campo da Psicologia Analítica nos tem mostrado abundantemente que o consciente e o inconsciente raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências. Esta falta de paralelismo, como nos ensina a experiência, não é meramente acidental ou sem propósito, mas se deve ao fato de que o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência. Podemos inverter a formulação e dizer que a consciência se comporta de maneira compensatória com relação ao inconsciente. (…) A atividade do inconsciente faz emergir um conteúdo em que se patenteia, em idêntica medida, o influxo da tese e da antítese, e que, em relação a ambas, conduz-se com efeitos compensatórios. Desde o começo em que esse conteúdo mostra suas relações tanto com a tese como com a antítese, constitui uma base intermediária em que os contrastes se podem conjugar. (…) Em seu conjunto, dou ao processo que acabo de descrever o nome de Função Transcendente. Mas, neste caso, não entendo como função, uma função fundamental, mas o fato de que, em virtude dessa função, opera-se o trânsito entre uma e outra disposição. A matéria-prima trabalha pela tese e antítese que em seu processo de conformação realiza a conjugação dos contrários é o símbolo vivo”.

A unidade dos opostos, consciente e inconsciente, é o que se concretiza na caixa de areia. Ela desempenha o papel desse diálogo entre as duas instâncias, assumindo a função transcendente dentro do processo terapêutico com o Jogo de Areia.

Por meio da caixa de areia ocorre o contato com a realidade mais profunda do paciente, possibilitando o diálogo com o Eu interno – o Si-mesmo, o confronto com o desconhecido em nós, que é necessário e fundamental a todo processo de transformação psicológica.

A caixa de areia e o setting terapêutico tornam-se a área limítrofe onde os opostos podem se confrontar e os conflitos podem ser resolvidos antes de serem levados para o mundo real.

Cenário que exemplifica a “função transcendente”:

Cenário que exemplifica aspectos da Função Transcedente

Vemos no lado direito do cenário figuras que personificam o povo, mulheres e homens com roupas e ferramentas de trabalho, no centro está o bobo da corte fazendo suas graças e do lado esquerdo estão figuras que representam a corte, o Rei e a Rainha, a Princesa e o Príncipe e o Arauto (aquele que anuncia a chegada das pessoas).

Neste cenário fica evidente a oposição.

O arquétipo do Rei simboliza a projeção do “Si-mesmo”, um ideal a realizar, é um valor ético e psicológico. Sua imagem concentra sobre si os desejos de autonomia, governo sobre si mesmo, de conhecimento integral e consciência. Junto com a Rainha, eles incorporam a união perfeita. A Rainha aparece como uma figura feminina e, portanto complementar em termos de dualidade: o Rei Solar e a Rainha Lunar.

O Príncipe e a Princesa significam o potencial para a realeza; o poder e o vigor da realeza jovem. O príncipe está associado ao Rei como a fertilidade de seu povo e terras. Ganhando a mão de uma princesa, como aparecem nos mitos e nas lendas, é uma inspiração a estados mais elevados ou superiores.

Os arquétipos do Rei e Rainha, assim como de Príncipe e Princesa, também podem se manifestar em seus pólos opostos, negativos. Então teremos um cenário com características despóticas, tiranas, e de abusos de autoridade. Com relação aos arquétipos de Príncipe e Princesa podemos observar também situações de caráter persecutório, envolvendo situações cercadas por perigos onde o Príncipe e a Princesa podem ser mortos.

Na metade da direita da caixa de areia está o povo, aqui simbolizando os aspectos físicos, a realidade concreta, a vida cotidiana. Todos são trabalhadores e, portanto simbolizam o “eu” a serviço do Si-mesmo – o Rei.

No centro do cenário vemos a figura do Bobo da Corte, que na idade média era como um “funcionário” da monarquia, que divertia a corte. Podia criticar o Rei sem correr riscos, era inteligente, atrevido e sagaz. Falava o que o povo gostaria de dizer ao Rei e com ironia mostrava as duas faces da realidade, revelando as discordâncias íntimas e, portanto ele é um integrador dos dois pólos do arquétipo, o positivo e o negativo.

O Bobo da Corte simboliza a função transcendente, que é o terceiro elemento que surge para integrar o par de opostos: povo e a corte, o “eu” e o Si-mesmo. Nesse sentido possibilita a unificação dos opostos restabelecendo o diálogo entre o “eu” – simbolizado pelo povo e o Si-mesmo simbolizado pelo Rei.

O Arauto, nas monarquias da Idade Média era o oficial que fazia as proclamações solenes, conferia títulos de nobreza, transmitia mensagens, anunciava a guerra e proclamava a paz. Neste cenário ele está anunciando que há um novo nível de integração e uma nova transformação a ser realizada.

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